Sonhos e realidade

Plinio Montagner

 

De repente, bem devagarinho, percebe-se que começa chegar o declínio do deslumbramento da vida. Começa assim: o Papai Noel deixou de trazer presente, a Fada desapareceu, a Feiticeira foi um invento e o Lobisomem é uma lenda.

Sonhar tem muito com a realidade. Sonhos são ilusões que nosso cérebro arquiteta e o subconsciente expõe sem nossa licença em forma de reprises distorcidas os fatos e comportamentos que na realidade seriam censurados.

A vida é sonho. A vida é uma ilusão, citando o poeta e dramaturgo espanhol Pedro Calderón de La Barca (1600 – 1681): “A vida é uma ilusão, um sonho, uma ficção. O maior bem é bisonho, pois toda a vida é um longo sonho, e os sonhos, sonhos são. Sonha o rico em sua riqueza que mais ânsias lhe oferecem. Sonha o pobre que padece sua miséria e sua pobreza. Todos sonham o que são, porém ninguém os entende”.

Sonhos revivem e revelam realidades visíveis e invisíveis, adormecidas acordadas pelo subconsciente. Tudo do presente e do passado é registrado. Nada nos pertence, ao Universo pertencia antes do nascimento. Deixamos o leve e o pesado, as alegrias, as tristezas, os débitos, os créditos, os amigos, os amores e os sonhos. E a vida segue.

Cadê o chocolate e nosso brinquedo? Não andamos mais de velocípede, de trem, a pé. E os amigos de infância e os de hoje? São raros. A avó, o avô, os pais, todos partem. Os filhos vão embora, os netos crescem e a saúde enternece. Não lavamos mais o carro; não viajamos. As relíquias vão permanecer em desuso e ignoradas. O piano desafinado, o violão sem cordas, caneta Parker 51 dorme em algum baú, o relógio Omega, o anel de formatura, são lembranças impregnadas de saudades que não serão disputadas quando partirmos.

Nossa presença nas festas e comemorações só acontece porque faz parte do protocolo. Nem a ausência será notada.

Fatos, lugares, bens, amores, desamores e o que ganhamos e perdemos são riquezas preservadas num celeiro imaginário que os idosos dependentes têm para se conectarem com a vida. Sozinhos são seres invisíveis em sua própria casa, desconexos ante o futuro sem luz e sem conhecimento. Seus horizontes distorcidos terminam numa cerca de quintal.

A música arte não é ouvida. A mídia e a juventude não admitem que a beleza não tem prazo de validade, não é coisa brega, não ficou fora. A literatura, os livros, aqueles de folhear mesmo, seguem o mesmo destino de ocupar espaços.

O canário aprisionado canta indiferente ao seu cárcere; não sabe que sua liberdade foi tomada. Nunca voou, nasceu na prisão, não conhece a natureza lá fora. Talvez, assim, sofra menos, pois os cegos do saber se acostumam à dor, ao feio, ao pior e à ignorância,

O gato fica preguiçoso e o cãozinho adormece numa casa sem alegria, sem crianças, sem flores, mas em abundância as saudades do real e da dignidade. Enquanto isso o certo e o errado seguem cada vez mais indefiníveis.

Os sonhos não podem acabar.

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Plinio Montagner, professor e pedagogo

 

 

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