Lilian Lacerda
O advento da pandemia do Covid-19 apresentou mudanças sem precedentes – quer seja pela legislação ou pelos documentos norteadores – ao trabalho do professor de educação infantil, cujas atividades passaram a ser realizadas em outro tempo, em outro espaço. Isso implicou em casa trouxe novas configurações e, algumas perduram até a data presente, haja visto que o professor além de preparar a aula presencial, precisa ocupar-se de atividades para casa: seja para os dias que as crianças não estão escaladas, seja para as famílias que optaram por não enviar seus filhos ao ambiente escolar.
Neste cenário, torna-se importante ressaltar que os professores da Rede Municipal de Piracicaba tiveram que se adaptar as mudanças em tempo recorde, sem treinamento, sem orientação e sem receber equipamentos tecnológicos. Os professores passaram a utilizar seu ambiente doméstico, seus equipamentos (celular, notebook, computador), sua energia, sua internet (móvel/fixa) sem nenhuma ajuda de custo. Sem contar que muitos profissionais não tem a ergonomia necessária para executar seu trabalho em casa.
Diante dos desafios apresentados e após meses de fechamento das escolas, as discussões do retorno das aulas presenciais foram marcadas pela ausência dos professores. Sabemos dos danos sociais e de aprendizagem provocados pela suspensão das aulas presenciais. Todavia, ressalta-se a importância que desse retorno que deveria ter sido planejado com cuidado e responsabilidade. Contrariamente, pouco foi pensado na segurança sanitária dos profissionais da educação.
Outro ponto que merece destaque, refere-se aos protocolos de segurança sanitária para o atendimento das atividades presenciais e medidas básicas de segurança implantados no município desde a opção pela abertura das escolas em fevereiro de 2021. Foram vários documentos apresentados aos profissionais, mas nenhum respaldo ou treinamento por parte dos órgãos competentes: Vigilância em Saúde, Serviços Especializados em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho, Sindicato dentre outros. Até o momento, não foi possível encontrar documentos sólidos como uma Nota Técnica, ou um Protocolo elaborado pela Secretaria Municipal de Piracicaba em parceria com outras secretarias ou entidades.
De outra parte, apenas documentos não é suficiente para garantir a segurança das crianças e dos profissionais de educação. Quem conhece a realidade das escolas sabe que é quase impossível manter o distanciamento social na educação infantil, ainda mais com as crianças bem pequenas que requer contato mais intensos. Sem contar com a estrutura física das escolas, cujas salas de aula são pequenas ou possuem pouca ventilação, fatores de risco para o contágio.
Outro ponto a se destacar referente ao retorno das atividades presenciais é o controle através de testagem. Não foi realizado testes nem no retorno, nem após o recesso de julho. Até o momento, ainda não temos nenhuma política de testagem e os Equipamentos de Proteção Individual (EPI) fornecidos para professores não estão claros nas diretrizes de retorno às escolas. Há ainda a falta de clareza quando há positivados no ambiente escolar.
Por algumas vezes esse descaso, a falta de e EPIs, de equipamentos e de organização foram aponta dos pelos professores a SME, a vereadores, mas sem sucesso.
A situação piora justamente quando professores passam a cobrar diretamente da SME os EPis como mínimo para realizar o trabalho docente. Além de termos de lidar com os impactos psicológicos e profissionais (mudanças na modalidade de trabalho) ainda temos que encarar as situações de perseguição, falta de respeito, constrangimento a que são submetidos os docentes por cobrar algo que é imprescindível para a preservação da “vida”. Estamos sós, por conta própria. Travando uma dura batalha em defesa da vida.
Voltamos a viver um Vivemos um clima muito tenso de medo e apreensão. Parafraseando Luiz Roberto Prandi, “o desrespeito ao professor retrata a decadência de uma sociedade doente”.
Ainda no aguardo de uma resposta oficial da SME de Piracicaba a respeito do descaso os profissionais vêm sendo submetidos ao laborar sem proteção, sem protocolos adequados, sem treinamento, sem testagem. Equipe administrativa e gestora laboram em condições muito diferenciada e gozam do privilégio de cargos da qual deveriam zelar pela segurança dos que atuam diretamente com as crianças. Ressalta-se que a maioria dos profissionais da educação não estão devidamente imunizados, em contato direto com crianças pequenas – muitas não usam máscara e essa secretaria insiste em dizer que as escolas são seguras e que existem protocolos, mas na prática não há fiscalização e controle.
A negligência em ignorar os fatos mencionados e cobrados pode representar um alto custo e até a perda de vidas. Infelizmente vivemos a negação da ciência em que se desconsideram os estudos, dados e pesquisas acerca da COVID-19.
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Lilian Lacerda, professora, doutora e mestra em Educação pela PUC-SP; pedagoga pela Unifran, professora de Educação Infantil no Município de Piracicaba.