Christopher Goulart
A Data de 7 de setembro, independência do Brasil, marca também a posse do Presidente João Goulart, que no presente ano completa 60 anos. Para que isso tivesse ocorrido, sabemos da atuação heroica de Leonel Brizola, que mobilizou a população do Rio Grande do Sul em defesa da legalidade, ou em outras palavras, para fazer valer a Constituição Federal, que previa a posse imediata do Vice-presidente da República em caso de renúncia do Presidente.
Tal campanha popular, contrapondo-se aos Ministros Militares Grun Moss, Odílio Denys e Silvio Heck que abertamente apoiavam um golpe contra a Carta Magna ao não aceitar a posse legítima de Jango, tomou proporções magníficas ao envolver um povo emocionado por uma causa nobre. Sem dúvida, Leonel Brizola é um herói da Pátria.
De outra sorte, na condição de neto mais velho de João Goulart, com a mesma exata idade de seu falecimento – 44 anos, sempre fui inspirado pela história que aprendi dentro de minha própria família. Lembrando que Jango e Brizola eram cunhados. Só que o fato de ter conhecido meu avô (eu tinha dois meses quando ele faleceu), nascer no exílio, portar três nacionalidades (Inglês, Brasileiro e Uruguaio) e sentir desde muito cedo todas as injustiças sofridas na pele por meu avô, com certeza lapidaram o meu destino. Aprendi que tudo que tem valor, não tem preço. Com isso, tenho a impressão que por vezes caminho na contramão de uma sociedade pautada pelo Consumo, pela ganância e imediatismo, onde absolutamente nada é construído para perdurar.
São apenas alguns valores que sustentam a caminhada. Os mesmos que nos mantêm permanentemente de cabeça erguida, com dignidade, pois poucos são os que escolhem o caminho mais difícil. Meu avô, João Goulart, tinha consciência de seu valor e de sua mensagem para a eternidade, quando tomou posse como Presidente da República. Ele tinha compromisso com os trabalhadores do Brasil.
Quando Jango assumiu a Presidência no dia 7 de setembro de 1961, após a renúncia calculada e maluca de Jânio Quadros, era nítida a sua intenção imediata de evitar um derramamento de sangue. Em seu discurso de posse, disse ele ao país: “Solidário com as vivas manifestações de nossa consciência democrática, de mim não se afastou um momento sequer, o pensamento de evitar, enquanto com dignidade pudesse fazê-lo, a luta entre irmãos. Tudo fiz para não marcar com sangue generoso do povo brasileiro o caminho que me trouxe a Brasília”. Jango optou por assumir a presidência no regime parlamentarista.
Um dos caminhos que trouxe Jango à Presidência de República sem dúvida foi a campanha da Legalidade. Porém, muito antes disso, já estava ele marcado pelos setores retrógrados-conservadores por haver aumentado o salário mínimo em 100% quando Ministro de Vargas e por sua ligação íntima com Getúlio Vargas.
A história é conhecida por todos. O que não é conhecido são as características pessoais de meu avô, que a meu ver, são as que consolidaram a marca do político. Compreendendo sua personalidade fica fácil entender o porquê de Jango ter conciliado, aceitando o regime Parlamentarista. Deu um passo atrás, pensando nos dois que daria logo adiante, como o plebiscito de janeiro de 1963 que lhe devolveu o poder presidencialista.
Um visionário, que tinha vergonha de ser rico num país com tanta pobreza por todos os lados. Só que a sua indignação era colocada em prática com inteligência, sem nenhum preconceito, assumindo compromisso com as necessidades básicas dos mais humildes. Sabia desde cedo que para isso, mais importante do que se impor era buscar a convergência. Sempre foi um pacifista, marca esta decisiva para que no futuro evitasse não apenas uma (1961), mas duas (1964) guerras civis.
Jango estava em Cingapura, quando soube que seria Presidente da República. Antes na China, recebido por Mao-Tse-Tung, entrou para a história como o primeiro líder latino-americano a abrir fronteiras comerciais com o Oriente. Quando o Senador Barros de Carvalho lhe trouxe a notícia de que Jânio Quadros havia renunciado, sugeriu abrir uma champagne para brindar “ao novo presidente”. Meu avô, muito consciente de sua missão, sugeriu brindar “ao imprevisível”.
Tenho certeza que em seu longo retorno de Cingapura ao Brasil, meu avô já pensava nas Reformas de Base. Para isso deveria encontrar uma solução harmoniosa. Não poderia ser diferente partindo de alguém que tinha uma responsabilidade com toda a Nação e não apenas com o Rio Grande do Sul. Pensava ele que deveria deixar de lado as suas vontades pessoais, mesmo que com previsão Constitucional expressa, aguentando silenciosamente as injustiças que teria que suportar permanentemente até o final de sua vida, quando morreu no exílio com apenas 57 anos.
Para compreender as decisões de Jango, faz-se necessário entender o homem atrás do político. Um idealista que viveu para servir ao seu País, a ponto de sacrificar a sua própria vida e família. Tenho orgulho de ter herdado valores considerados hoje fora do padrão comum. É que Aprendi que lutar e morrer pela Pátria, não é pouca sorte pra ninguém.
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Christopher Goulart, advogado, primeiro Suplente de Senador PDT/RS)