Antonio Lara
Muitas são as interpretações da frase: “O inferno são os outros”, de Jean Paul Sartre. Particularmente, gosto desta: É o ser para os outros, o eu objeto. É a vergonha de ser olhado, pois “o olhar alheio me fixa e me paralisa”. É a sensação de culpa, por não ter cometido algo errado, mas por ser um objeto em meio às outras coisas.
Essa máxima é, na essência, a síndrome de Adão e Eva: “A mulher que me deste por companheira, ela me deu da arvore, e comi”. Disse Adão. Por outro lado, Eva, na sua autodefesa, indefensável, abriu à boca: “A serpente me enganou, e eu comi.” Então, sobrou para a serpente! Que, portanto, se tornou maldita!
De lá até aqui, e daqui por diante, o homem continuará transferindo suas culpas ao outro, afinal “o inferno são os outros”! É assim, nas mais simples relações passionais e de cumplicidade, até os grandes e conglomerados sociais. A falácia é a mesma!
Por quê? Porque o homem é, naturalmente, constituído de um espírito hedonista, que o leva a omitir a verdade, para não dizer mentir. O homem pode dizer a verdade, dos fatos, mas prefere mentir!Esse fantástico mundo da mentira se alarga de formas sem medida em todos os segmentos sociais. Basta ver o sucesso dos programas de televisão fabricados para imbecilizar; dos pregadores do “evangelho” que oferecem o paraíso sem falar das agruras da cruz.
Parece que o mundo de hoje é o mundo dos velhacos, dos trapaceiros, dos charlatões, infiltrados em todos os segmentos da sociedade. Deste modo, estamos todos privados de fim, de unidade e de verdade. O mundo parece sem valor. Refém dum sistema sem valor e cada vez mais distante dos princípios e leis da lógica, como arte do pensar, que mostra que a moral visa à edificação de um “reino dos fins.” Mundo em que a vontade legisladora de um “reino dos fins” infelizmente sucumbe diante da desonestidade dos que “edificam” na construção de um “reino dos meios”. Mundo, em que os governantes não são autocríticos. A culpa é sempre do outro.
Essa mania “perversa” de transferir, ao outro, as causas das misérias humanas, é o que faz suscitar, no seio da sociedade as rivalidades, lutas e discussões inúteis, a corrupção, a pobreza, a tirania, as guerras e porfias de toda ordem. Como sair desse estado totalmente insuportável? Como os homens podem sair desse circulo vicioso de luta, inimizade, ódio e suspeita?
Por outro lado, atualmente, o homem se orgulha em “confiar” ou depositar suas esperanças no “outro”. Novidade esta tanto mais claro se considerarmos o fato de que este homem (povo) confia totalmente sua vida ao poder público, ao Estado. Ao mesmo tempo, transfere suas angustias e sofrimentos ao mesmo Estado. Nesse caso, os governantes são o próprio inferno, porquanto, o inferno são os outros!
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Antonio Lara, articulista, [email protected]
Na verdade, quero saber, será que cometeram o pecado do sexto?